Norte da Alemanha
Residência dos Drevis
–Visão de Aya Drevis-
Eu bati na porta três
vezes e não colocando muita força. Eu estava insegura. Já estava
assustada antes de estar ali, na frente daquela porta. Mas eu não
saberia como ele iria reagir, se eu não tentasse falar com ele.
– Pai... -Meu tom de voz era baixo. Não queria falar alto para não incomodá-lo. Não quero que ele se zangue comigo.-
Aqui é muito escuro.
Como meu pai pode ficar em um lugar desses ? Mesmo com os castiçais na
parede, aqui me dá calafrios. Eu não tive resposta, então, respirei
fundo e bati na porta mais três vezes. Tomei coragem para falar outra
vez, mas mantendo o mesmo tom baixo e rouco, que minha voz costuma ter
naturalmente. Mas desta vez, eu falei com um pouco mais de firmeza e
confiança.
– Pai, você está aí ? -A
porta que estava a minha frente se abriu. Eu me afastei. Não sabia
direito como reagir, nem o que falar. Nem mesmo sabia pra que lado
olhar. Espero que ele não se zangue comigo...- Pai!
– Aya! Quantas vezes vou
ter que te dizer para não descer aqui ? -Esse é o meu pai. Alfred
Drevis. Alto, cabelos castanhos... Como ele usa óculos, eu nunca reparei
muito bem na cor de seus olhos. Eu quase nunca passo um tempo com ele.
Ele está do mesmo jeito de sempre. Com a mesma máscara, as mesmas
roupas... Ele passa a maior parte do tempo aqui.-
– Me desculpe, pai...
Mas... um... Estou com tanto medo de dormir sozinha... -Eu estava
fitando o chão, com uma expressão de arrependimento. Que tola que eu
sou... Claro que meu pai iria se zangar comigo se eu viesse aqui. Ainda
mais por um motivo desses. Mas a culpa não é minha.-
– Aya... -Meu pai se
ajoelhou a minha frente. Mesmo ajoelhado, ele ainda é maior do que eu.
Eu ainda fitava o chão. Não tinha coragem de encará-lo.– Não se
preocupe. Você nunca está sozinha. Sua falecida mãe está sempre ao seu
lado. Ela está sempre cuidando de você, Aya. -Ele levantou meu rosto.
Acho que quando eu não o encarava, ele pensava que eu não estava
prestando atenção nele.- Está bem ? Agora, por favor vá para a cama.
– Sim, pai... -Eu dei um
sorriso de lado e virei o rosto. Estou feliz de que ele não tenha se
zangado comigo. Eu não quero vê-lo bravo, e muito menos triste. Não
quero ser motivo pra ele ficar assim.-
– Boa garota. -Ele fez
um carinho em minha cabeça, igual aos carinhos que eu sempre dava em meu
coelho, Bola de Neve. Eu sorri e comecei a ir embora. Não fui muito
longe. Eu voltei pra perto dele.-
– Pai, amanhã é...
– Sim, é o aniversário
da morte dela. -Ele começou a fitar o chão, com um sorriso de lado. Ele
não estava mais de joelhos, então eu tinha que olhar bem pra cima pra
olhá-lo nos olhos. Ele me deu outro carinho na cabeça.- Nós vamos
visitar o túmulo dela juntos.
– Está certo. -Eu
finalmente sorri espontaneamente. Meu pai sempre diz que meus olhos se
fecham quando eu sorrio. Eu imagino como eu fico em momentos como
esse...-
– Agora, volte para a cama, por favor. Eu vou estar descansando em breve.
– Está bem... -Ele sempre me diz isso, e eu continuo acreditando. Eu espero que seja verdade...-
Eu me virei e comecei a
ir em direção ao meu quarto. Como eu não ando muito rápido, eu pude
ouvir meu pai fechando a porta rapidamente. Eu parei ali onde estava. Eu
já sei o que vem depois disso... Me virei em direção a porta do
laboratório do meu pai. Como nada aconteceu, eu voltei a andar, mas
parei novamente.
– P-Pare! -Uma voz
desconhecida ecoava de dentro do laboratório do meu pai. Eu não me mexi
nem um centímetro dali. Vai ser igual as outras vezes ?- Nãao! WAAAAH!
-Definitivamente, vou fingir que não ouvi esses gritos. Um barulho de
serra-elétrica sendo ligada veio logo a seguir.- Me aude! AJUUUUDEEE!!!!
-Parece que a serra-elétrica entrou em contato com o que queria, afinal
de contas. O barulho da serra-elétrica foi ficando mais alto. Um último
grito, mais alto do que os outros. Parou de repente. Eu sai correndo
dali. Enquanto caminhava pela mansão, me perdia em meus pensamentos. Não
conseguia nem olhar fixamente para onde ia...-
Eu sei o segredo
do meu pai. Meu pai é um cientista. Ele ama pesquisas e está sempre
trancado dentro do laboratório no porão. E eu sempre ouço coisas do
laboratório dele... Animais e humanos gritando... Mesmo sendo jovem, eu
sabia o que meu pai estava fazendo. Então, eu fingi que não estava
olhando. Que eu não sabia ou ouvia nada. Fingi ignorância o tempo todo.
Porque eu amava meu pai. E esse não é o único segredo que eu sei. Quando
eu e minha mãe não estávamos perto, ele e sua ajudante...
–Visão de Alfred Drevis-
– Uma amostra bem...
-Não consegui terminar de falar. Maria iria dizer algo outra vez. Mas
que coisa. Eu odeio isso. Mas... Como foi por ela, não tenho porque me
zangar. Mesmo porque, ela é muito ingênua...-
– Eu vou dispor os
materiais restantes, Doutor. -Maria... Desde que ela veio pra essa casa,
eu tenho tido bem mais ajuda. Afinal, ela é minha ajudante. E ajudantes
ajudam... Ah, ela tem os olhos tão bonitos. Verde se tornou a minha cor
favorita...-
– Isso pode esperar. Venha, Maria. -Maria começou a me olhar do mesmo jeito ingênuo de quando a conheci.-
– Doutor... -A voz dela é
tão doce... Ela sorriu levemente e veio me abraçar.- Doutor... -Ela se
afastou um pouco de mim e começou a evitar me olhar nos olhos.- Ela está
consciente de nossa... relação.
– Hm ? O que isso
importa ? -Maria insiste em falar de Aya sempre que eu demonstro afeto
por ela. Eu não me importo com o que Aya pensa. Afinal, ela é uma
criança.-
– Eu não acredito que
ela gosta de mim. Esse é o problema. -Maria não consegue mesmo olhar pra
mim quando o assunto se resume a Aya, e a nossa "relação".-
– A garota terá onze
logo. É uma idade problemática, com certeza. -Eu voltei a abraçá-la. Ela
permaneceu imóvel por alguns segundos, e logo depois correspondeu ao
meu abraço.- Seja gentil em relação a ela, por favor. Certifique-se de
que ela nunca seja prejudicada. Ela é a minha mais preciosa... -Dessa
vez o relógio me interrompeu. Senti uma breve respiração atrás de bem.
Bem perto de mim, para falar a verdade.
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