–Visão de Aya Drevis-
O relógio marca
meia-noite. Sinto uma tontura. Meus olhos se fecham sozinhos,
praticamente, mas eu não consigo dormir. Bela hora em que tudo dentro de
mim resolveu conspirar contra mim. Ah, como eu tenho
uma bela e maldita "sorte"... Eu vou chegar a loucura se continuar
assim. Já não conseguia dormir, e agora vem o relógio me acordar.
– É meia-noite...
-Pareço uma zumbi falando. Eu falo sozinha. Acho que isso me faz bem.
Mas eu sinto como se eu não estivesse sozinha. E como meu próprio pai me
disse, eu nunca estou sozinha.– Hoje é o dia em que a
mamãe foi para o céu... Mãe... -Eu me levanto lentamente. Eu não dormi,
então é compreensível que eu esteja assim. Não tenho disposição para me
mexer rápido. Mas, que motivos eu tenho pra isso ? Eu me sento na cama
ainda com ar de cansaço. E eu estou mesmo cansada.- Eu nunca consigo
dormir quando eu penso sobre a mamãe...
Finalmente tomei coragem
para me levantar. Eu nem tinha colocado meu pijama naquela noite. Já
era tarde e eu ainda estava lá no porão estorvando meu pai. Ainda me
lembro de suas palavras... "Agora volte para a cama, por favor. Eu vou estar descansando em breve."
Aya Drevis, sua idiota. Eu fiquei com tanto medo de ele vir aqui ver se
eu estava dormindo, que fiquei de vestido e sandália, e deitei assim
mesmo. Nem tirei a fita do meu cabelo... Está me incomodando um pouco,
mas não é nada totalmente grave... Eu caminhei em direção a um pequeno
porta-retrato de minha mãe, que ficava encima de uma pequena mesinha com
uma gaveta embaixo.
– Mamãe... -Ela era
perfeita em tudo, não era ? Cabelos castanhos, lisos e compridos, olhos
azuis como o mar e um corpo das mais belas curvas.- O que devo fazer,
mamãe? Eu amo meu pai, mas... -Eu fitei o chão. Não sabia como falar
disso para minha mãe. Tudo era mais fácil quando ela era viva...- Ela me
assusta, mãe. Ela sempre... olha pra mim com aqueles olhos... Eu odeio
ela. -Não sei como estava dizendo isso. Meu pai poderia estar ouvindo
atrás da porta, mas eu não posso esconder quando estou preocupada ou
triste. Não posso esconder de minha própria família. Não posso esconder
isso da minha mãe.- Eu odeio ela, mamãe. Mas eu sei que meu pai gosta
dela... Se meu pai e ela se casarem, acho que ela vai ser minha nova
mãe... Eu não quero que ela seja minha nova mãe. Eu não preciso de uma
nova mãe. Só tem uma mãe no mundo pra mim... -Eu voltei a olhar para o
porta-retrato.- Mamãe, porque você teve que ir ?
Eu precisava relaxar.
Fui vasculhar o meu quarto para ver se acho algo com o que me distrair.
Ao canto direito, duas cômodas grandes cheias de minhas roupas... Na
frente da janela que toma quase toda a parede, está meu urso de pelúcia
favorito. Tem o meu tamanho. Talvez, um pouco melhor. Eu sempre gostei
de coisas realistas, mas duvido achar um urso do meu tamanho e que seja
real. Eu sempre vi aqueles documentários com ursos com mais de dois
metros... Coitada de mim. Quase não tenho um metro... Ao lado do meu
urso de pelúcia preferido, encontra-se a minha amada boneca.
– Uma boneca dada pelo meu pai ... É tão velha e gasta...
Flashback ON
Meus cabelos estavam
amarrados por duas fitas da cor rosa. Eu usava meu vestido preferido. Eu
me sento a beira da cama com dificuldade. Eu ainda não tenho tamanho
para fazer isso naturalmente. Meu pai entra pela porta. Ele está animado
e com as mãos para trás do corpo. Ele vem em minha direção e se ajoelha
a minha frente.
– Eu lhe trouxe um
presente, Aya. -Ele me mostra o que tinha nas mãos. Uma boneca. Uma
linda boneca com um vestido e um capuz. Os dois da cor verde-claro. Seu
vestido contém babados brancos e brilhantes que prendiam a minha
atenção.-
– Oba! É uma boneca. -Eu
analisava com cuidado, até ter coragem de pegar a boneca em minhas
mãos. Eu virava-a, mexia em tudo, e meu pai parecia se divertir com esse
meu comportamento.- Obrigada, papai. Que boneca bonita... -Parece até
que é real. Eu me impressiono facilmente, admito.-
Flashback OFF
Nhaw... Bons tempos.
Voltando a analisar meu quarto, percebo que ainda não analisei aquelas
três estantes de livros. Quando me aproximo da segunda estante, minha
atenção é dirigida a um grande livro vermelho e brilhante. O título...
"O estranho de olhos vermelhos." Isso é intimidador. Ainda mais a essa
hora... Ouço um pequeno barulho de grama se mexendo atrás de mim. O que
mais seria ? Meu coelho, Bola de Neve, se virando enquanto dorme. Não
sou só eu que estou com problemas pra isso... Ao lado, um baú cheio com
as minhas memórias.
Eu paro por um tempo. Uma sensação de arrepio toma conta do meu corpo.
– O quarto ficou tão
frio de repente... -Algo como uma respiração invade meus ouvidos. Penso
ser uma brisa, mas acho melhor eu não saber o que é.- Eu estou um pouco
assustada... Melhor eu voltar para minha cama. -Eu não levanto minha
cabeça em nenhum segundo. Caminho até minha cama lentamente, ainda
assustada- Boa noite.
Me deito e fecho meus
olhos devagar. O relógio continua a interromper o silêncio do meu
quarto. Até que finalmente adormeço. Um sonho, um doce sonho vem em
minha cabeça. Uma lembrança. Uma das melhores que tenho.
Flashback ON
– Na na, na na na... Na
na, na na na. -Continuo a cantarolar a melodia no mesmo ritmo calmo e
sereno. A melodia vai no ritmo da minha imaginação. O ritmo invade meus
pensamentos, e minha voz lê esses pensamentos.-
– Você canta muito bem,
Aya. -Meu pai está prestando atenção em mim ? Estranho. Ele parece tão
concentrado mexendo com todas aquelas flores que eu colhi... Minha
curiosidade tomou conta de mim.-
– Pai, você pode olhar
para este lado ? -Eu não poderia ficar quieta. .Não por muito tempo. Ele
dá mais atenção para umas flores do que para sua própria filha.
Estranho mesmo. Eu nunca consigo brincar com ele, e quando consigo ele
vai prestar atenção em flores ?-
– Dê-me um momento. -Ele
diz, entusiasmado. Eu me sento virada para a direção contrária a dele.
Ou seja, sento-me de costas para ele.- É só colocar isso aqui... Está
pronto! -Ele coloca algo em minha cabeça. Eu passo a mão para sentir o
que é.-
– Uma coroa de flores ?
-Eu deveria morrer. Estou aqui pensando que ele não quer me dar atenção,
e ele estava fazendo algo para mim.- I-Isso fica bem em mim ? -Eu olho
pra cima, para tentar ver a coroa de flores. Isso seria meio impossível,
já que ela está sobre a minha cabeça.-
– Sim, eu acho que isso
serve tão bem... -Ele estava feliz. Acho que porque eu gostei da coroa
de flores. Mas é claro. Eu sempre venho ao jardim para brincar com Bola
de Neve, e meu pai sabe disso. Eu estou acostumada com estas flores,
mesmo que as pétalas façam cocegas em meu nariz.-
– Yaaaay. -Eu começo a
rodopiar feito um carrossel. E a pular enquanto rodopio. Pensando bem,
um carrossel é mais devagar.- Obrigada, papai. -Meus olhos realmente se
fecham enquanto eu sorrio. E só agora eu fui perceber isso.-
– Me desculpe por eu não
poder brincar sempre com você.... -Ele sempre fica no laboratório. É
bem raro ele vir brincar comigo. Mas quando brinca, eu me divirto tanto,
que parece compensar o tempo que ele fica longe de mim.-
– Papai, está tudo bem.
Eu estou feliz por ter brincado com você hoje. -Ouço passos na grama.
Decido olhar na direção em que eles vem. Para a minha surpresa...-
– Ah, vocês dois estão
brincando ? -Finalmente. Eu me diverti tanto que até me esqueci que
minha mãe poderia ter participado. Mas foi divertido de qualquer jeito.-
– Mamãe. -Eu vou
correndo até ela mostrar o meu novo presente. Sinto orgulho dele.
Afinal, foi meu pai quem o fez para mim.- Olhe! O papai me fez uma coroa
de flores! -Meu pai nos observava de longe e sorrindo.-
– Isso é maravilhoso. E
fica bem em você, Aya. -Minha mãe também acha que flores combinam
comigo. Estranho, porém legal.- Então, você brincou com ele o dia
inteiro ?
– Sim, mamãe. -Eu me
viro e corro até meu pai. Estou tão feliz que poderia correr mais
rápido. Mais rápido que... um carrossel.- Nós deveríamos fazer isso
outra vez, papai.
– Sim, nós poderíamos.
Da próxima vez, sua mãe poderia participar também. -Meu pai leu meus
pensamentos. Eu amava quando meu pai e minha mãe me levavam para brincar
no parque. Nós três nos divertíamos muito juntos. E agora, meu pai quer
que façamos isso outra vez. Tenho que admitir, eu também quero. E quero
muito.-
– Bem, eu vou tentar...
-Minha mãe está sorrindo timidamente para o meu pai. E eu, sorrindo para
ele também.- Cough! Hack! -Minha mãe começa a tossir. Está engasgada
com algo, ou deve ser uma secura na garganta.-
– Mamãe. -Eu fui até
ela, rapidamente. Estou preocupada com ela. Não quero que nada aconteça
com ela. Meu pai também parece preocupado. Ele se levantou assim que
minha mãe começou a tossir.-
– M-Me desculpe...
Apenas outro ataque. -Ela está se desculpando por tossir... Qual a
lógica disso ?- Hack! Wheeze! -A tosse está piorando. Ela está
engasgando enquanto tenta tossir...-
– Não se culpe, Monika.
Você não tem culpa disso acontecer. -Meu pai chamou minha mãe pelo nome
dela. Monika Drevis... Ele quase nunca chama ela assim. Eu estou
acostumada a ver ele falando com ela normalmente, mas ele NUNCA chama
ela pelo nome.- Venha. Vamos pegar alguma medicina da Maria. Isso vai te
ajudar a ficar melhor.
– Não. -Porque minha mãe
recusaria medicina ? Ela está precisando. E a Maria sabe muito bem como
cuidar de alguém. Ela é uma ótima aprendiz de doutora. Pelo menos,
quando ela cuidou de mim, cuidou muito bem. Claro, isso não quer dizer
que eu goste dela.- Eu posso pegar isso sozinha.
– Mamãe, você está machucada ? Quero dizer... Você está bem, não é ?
– Está tudo bem, Aya.
Não fique assim, por favor. -Ela sorria timidamente enquanto me dava
leves carinhos na cabeça. Isso é o que eu gosto nela. Ela parece tão
frágil e desprotegida, mas ela é tão forte e protetora...- Aya, o seu
sorriso me deixa melhor do que tudo. E, se eu não posso te ver sorrindo,
eu fico preocupada. Então, não se preocupe comigo. Eu quero te ver
sorrindo.
– Mamãe... -Eu sou mesmo tão importante assim pra ela ?- Tudo bem.
– Ótimo. Agora, vamos
para o jantar. Eu fiz hambúrguer. Os seus favoritos. -Haha. Minha mãe
sabe mesmo como me agradar. Afinal, ninguém melhor pra fazer uma criança
feliz, do que a própria mãe.-
– Eba! Eu amo os seus hambúrgueres, mamãe.
– É claro. Os
hambúrgueres dela são os melhores do mundo. -Meu pai se aproximou e me
fez outro carinho na cabeça. Eu adoro isso. Me faz bem.-
Flashback OFF
Estávamos tão
felizes. Havíamos Maria, mas... Ainda assim, nós três eramos uma família
feliz. Mas depois minha mãe faleceu de doença... E a felicidade que eu
tinha, bem...
O relógio... A décima
segunda badalada. Logo depois dela, um grito interrompe meus
pensamentos. Eu levanto assustada. Desesperada. Aqui não foi parte do
sonho. O grito foi real.
– Esse grito... Papai ?
-Eu me sentei a beira da cama e logo me levantei.- Algo deve ter
acontecido. Eu vou verificar meu pai. -Eu caminho rápido, até chegar a
porta de meu quarto. Dou um longo suspiro, tentando tomar coragem para o
que esta por vir.- Eu tenho um mal pressentimento...
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