quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Capitulo 2 - That scream...

–Visão de Aya Drevis-
O relógio marca meia-noite. Sinto uma tontura. Meus olhos se fecham sozinhos, praticamente, mas eu não consigo dormir. Bela hora em que tudo dentro de mim resolveu conspirar contra mim. Ah, como eu tenho uma bela e maldita "sorte"... Eu vou chegar a loucura se continuar assim. Já não conseguia dormir, e agora vem o relógio me acordar.
– É meia-noite... -Pareço uma zumbi falando. Eu falo sozinha. Acho que isso me faz bem. Mas eu sinto como se eu não estivesse sozinha. E como meu próprio pai me disse, eu nunca estou sozinha.– Hoje é o dia em que a mamãe foi para o céu... Mãe... -Eu me levanto lentamente. Eu não dormi, então é compreensível que eu esteja assim. Não tenho disposição para me mexer rápido. Mas, que motivos eu tenho pra isso ? Eu me sento na cama ainda com ar de cansaço. E eu estou mesmo cansada.- Eu nunca consigo dormir quando eu penso sobre a mamãe...
Finalmente tomei coragem para me levantar. Eu nem tinha colocado meu pijama naquela noite. Já era tarde e eu ainda estava lá no porão estorvando meu pai. Ainda me lembro de suas palavras... "Agora volte para a cama, por favor. Eu vou estar descansando em breve." Aya Drevis, sua idiota. Eu fiquei com tanto medo de ele vir aqui ver se eu estava dormindo, que fiquei de vestido e sandália, e deitei assim mesmo. Nem tirei a fita do meu cabelo... Está me incomodando um pouco, mas não é nada totalmente grave... Eu caminhei em direção a um pequeno porta-retrato de minha mãe, que ficava encima de uma pequena mesinha com uma gaveta embaixo.
– Mamãe... -Ela era perfeita em tudo, não era ? Cabelos castanhos, lisos e compridos, olhos azuis como o mar e um corpo das mais belas curvas.- O que devo fazer, mamãe? Eu amo meu pai, mas... -Eu fitei o chão. Não sabia como falar disso para minha mãe. Tudo era mais fácil quando ela era viva...- Ela me assusta, mãe. Ela sempre... olha pra mim com aqueles olhos... Eu odeio ela. -Não sei como estava dizendo isso. Meu pai poderia estar ouvindo atrás da porta, mas eu não posso esconder quando estou preocupada ou triste. Não posso esconder de minha própria família. Não posso esconder isso da minha mãe.- Eu odeio ela, mamãe. Mas eu sei que meu pai gosta dela... Se meu pai e ela se casarem, acho que ela vai ser minha nova mãe... Eu não quero que ela seja minha nova mãe. Eu não preciso de uma nova mãe. Só tem uma mãe no mundo pra mim... -Eu voltei a olhar para o porta-retrato.- Mamãe, porque você teve que ir ?
Eu precisava relaxar. Fui vasculhar o meu quarto para ver se acho algo com o que me distrair. Ao canto direito, duas cômodas grandes cheias de minhas roupas... Na frente da janela que toma quase toda a parede, está meu urso de pelúcia favorito. Tem o meu tamanho. Talvez, um pouco melhor. Eu sempre gostei de coisas realistas, mas duvido achar um urso do meu tamanho e que seja real. Eu sempre vi aqueles documentários com ursos com mais de dois metros... Coitada de mim. Quase não tenho um metro... Ao lado do meu urso de pelúcia preferido, encontra-se a minha amada boneca.
– Uma boneca dada pelo meu pai ... É tão velha e gasta...
Flashback ON
Meus cabelos estavam amarrados por duas fitas da cor rosa. Eu usava meu vestido preferido. Eu me sento a beira da cama com dificuldade. Eu ainda não tenho tamanho para fazer isso naturalmente. Meu pai entra pela porta. Ele está animado e com as mãos para trás do corpo. Ele vem em minha direção e se ajoelha a minha frente.
– Eu lhe trouxe um presente, Aya. -Ele me mostra o que tinha nas mãos. Uma boneca. Uma linda boneca com um vestido e um capuz. Os dois da cor verde-claro. Seu vestido contém babados brancos e brilhantes que prendiam a minha atenção.-
– Oba! É uma boneca. -Eu analisava com cuidado, até ter coragem de pegar a boneca em minhas mãos. Eu virava-a, mexia em tudo, e meu pai parecia se divertir com esse meu comportamento.- Obrigada, papai. Que boneca bonita... -Parece até que é real. Eu me impressiono facilmente, admito.-
Flashback OFF
Nhaw... Bons tempos. Voltando a analisar meu quarto, percebo que ainda não analisei aquelas três estantes de livros. Quando me aproximo da segunda estante, minha atenção é dirigida a um grande livro vermelho e brilhante. O título... "O estranho de olhos vermelhos." Isso é intimidador. Ainda mais a essa hora... Ouço um pequeno barulho de grama se mexendo atrás de mim. O que mais seria ? Meu coelho, Bola de Neve, se virando enquanto dorme. Não sou só eu que estou com problemas pra isso... Ao lado, um baú cheio com as minhas memórias.
Eu paro por um tempo. Uma sensação de arrepio toma conta do meu corpo.
– O quarto ficou tão frio de repente... -Algo como uma respiração invade meus ouvidos. Penso ser uma brisa, mas acho melhor eu não saber o que é.- Eu estou um pouco assustada... Melhor eu voltar para minha cama. -Eu não levanto minha cabeça em nenhum segundo. Caminho até minha cama lentamente, ainda assustada- Boa noite.
Me deito e fecho meus olhos devagar. O relógio continua a interromper o silêncio do meu quarto. Até que finalmente adormeço. Um sonho, um doce sonho vem em minha cabeça. Uma lembrança. Uma das melhores que tenho.
Flashback ON
– Na na, na na na... Na na, na na na. -Continuo a cantarolar a melodia no mesmo ritmo calmo e sereno. A melodia vai no ritmo da minha imaginação. O ritmo invade meus pensamentos, e minha voz lê esses pensamentos.-
– Você canta muito bem, Aya. -Meu pai está prestando atenção em mim ? Estranho. Ele parece tão concentrado mexendo com todas aquelas flores que eu colhi... Minha curiosidade tomou conta de mim.-
– Pai, você pode olhar para este lado ? -Eu não poderia ficar quieta. .Não por muito tempo. Ele dá mais atenção para umas flores do que para sua própria filha. Estranho mesmo. Eu nunca consigo brincar com ele, e quando consigo ele vai prestar atenção em flores ?-
– Dê-me um momento. -Ele diz, entusiasmado. Eu me sento virada para a direção contrária a dele. Ou seja, sento-me de costas para ele.- É só colocar isso aqui... Está pronto! -Ele coloca algo em minha cabeça. Eu passo a mão para sentir o que é.-
– Uma coroa de flores ? -Eu deveria morrer. Estou aqui pensando que ele não quer me dar atenção, e ele estava fazendo algo para mim.- I-Isso fica bem em mim ? -Eu olho pra cima, para tentar ver a coroa de flores. Isso seria meio impossível, já que ela está sobre a minha cabeça.-
– Sim, eu acho que isso serve tão bem... -Ele estava feliz. Acho que porque eu gostei da coroa de flores. Mas é claro. Eu sempre venho ao jardim para brincar com Bola de Neve, e meu pai sabe disso. Eu estou acostumada com estas flores, mesmo que as pétalas façam cocegas em meu nariz.-
– Yaaaay. -Eu começo a rodopiar feito um carrossel. E a pular enquanto rodopio. Pensando bem, um carrossel é mais devagar.- Obrigada, papai. -Meus olhos realmente se fecham enquanto eu sorrio. E só agora eu fui perceber isso.-
– Me desculpe por eu não poder brincar sempre com você.... -Ele sempre fica no laboratório. É bem raro ele vir brincar comigo. Mas quando brinca, eu me divirto tanto, que parece compensar o tempo que ele fica longe de mim.-
– Papai, está tudo bem. Eu estou feliz por ter brincado com você hoje. -Ouço passos na grama. Decido olhar na direção em que eles vem. Para a minha surpresa...-
– Ah, vocês dois estão brincando ? -Finalmente. Eu me diverti tanto que até me esqueci que minha mãe poderia ter participado. Mas foi divertido de qualquer jeito.-
– Mamãe. -Eu vou correndo até ela mostrar o meu novo presente. Sinto orgulho dele. Afinal, foi meu pai quem o fez para mim.- Olhe! O papai me fez uma coroa de flores! -Meu pai nos observava de longe e sorrindo.-
– Isso é maravilhoso. E fica bem em você, Aya. -Minha mãe também acha que flores combinam comigo. Estranho, porém legal.- Então, você brincou com ele o dia inteiro ?
– Sim, mamãe. -Eu me viro e corro até meu pai. Estou tão feliz que poderia correr mais rápido. Mais rápido que... um carrossel.- Nós deveríamos fazer isso outra vez, papai.
– Sim, nós poderíamos. Da próxima vez, sua mãe poderia participar também. -Meu pai leu meus pensamentos. Eu amava quando meu pai e minha mãe me levavam para brincar no parque. Nós três nos divertíamos muito juntos. E agora, meu pai quer que façamos isso outra vez. Tenho que admitir, eu também quero. E quero muito.-
– Bem, eu vou tentar... -Minha mãe está sorrindo timidamente para o meu pai. E eu, sorrindo para ele também.- Cough! Hack! -Minha mãe começa a tossir. Está engasgada com algo, ou deve ser uma secura na garganta.-
– Mamãe. -Eu fui até ela, rapidamente. Estou preocupada com ela. Não quero que nada aconteça com ela. Meu pai também parece preocupado. Ele se levantou assim que minha mãe começou a tossir.-
– M-Me desculpe... Apenas outro ataque. -Ela está se desculpando por tossir... Qual a lógica disso ?- Hack! Wheeze! -A tosse está piorando. Ela está engasgando enquanto tenta tossir...-
– Não se culpe, Monika. Você não tem culpa disso acontecer. -Meu pai chamou minha mãe pelo nome dela. Monika Drevis... Ele quase nunca chama ela assim. Eu estou acostumada a ver ele falando com ela normalmente, mas ele NUNCA chama ela pelo nome.- Venha. Vamos pegar alguma medicina da Maria. Isso vai te ajudar a ficar melhor.
– Não. -Porque minha mãe recusaria medicina ? Ela está precisando. E a Maria sabe muito bem como cuidar de alguém. Ela é uma ótima aprendiz de doutora. Pelo menos, quando ela cuidou de mim, cuidou muito bem. Claro, isso não quer dizer que eu goste dela.- Eu posso pegar isso sozinha.
– Mamãe, você está machucada ? Quero dizer... Você está bem, não é ?
– Está tudo bem, Aya. Não fique assim, por favor. -Ela sorria timidamente enquanto me dava leves carinhos na cabeça. Isso é o que eu gosto nela. Ela parece tão frágil e desprotegida, mas ela é tão forte e protetora...- Aya, o seu sorriso me deixa melhor do que tudo. E, se eu não posso te ver sorrindo, eu fico preocupada. Então, não se preocupe comigo. Eu quero te ver sorrindo.
– Mamãe... -Eu sou mesmo tão importante assim pra ela ?- Tudo bem.
– Ótimo. Agora, vamos para o jantar. Eu fiz hambúrguer. Os seus favoritos. -Haha. Minha mãe sabe mesmo como me agradar. Afinal, ninguém melhor pra fazer uma criança feliz, do que a própria mãe.-
– Eba! Eu amo os seus hambúrgueres, mamãe.
– É claro. Os hambúrgueres dela são os melhores do mundo. -Meu pai se aproximou e me fez outro carinho na cabeça. Eu adoro isso. Me faz bem.-
Flashback OFF
Estávamos tão felizes. Havíamos Maria, mas... Ainda assim, nós três eramos uma família feliz. Mas depois minha mãe faleceu de doença... E a felicidade que eu tinha, bem...
O relógio... A décima segunda badalada. Logo depois dela, um grito interrompe meus pensamentos. Eu levanto assustada. Desesperada. Aqui não foi parte do sonho. O grito foi real.
– Esse grito... Papai ? -Eu me sentei a beira da cama e logo me levantei.- Algo deve ter acontecido. Eu vou verificar meu pai. -Eu caminho rápido, até chegar a porta de meu quarto. Dou um longo suspiro, tentando tomar coragem para o que esta por vir.- Eu tenho um mal pressentimento...

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